quarta-feira, 9 de março de 2011

Fotografia e a discussão do que é belo !

Desde o surgimento da fotografia muito se fala em que - fotos são imagens idealizadas – discute-se até então que a fotografia não era uma arte por ser apenas um mero meio de registro. Ainda na mente de muitos fotógrafos amadores, a bela imagem é aquela clichê da flor bonita com uma borboleta bonita em um lugar totalmente florido onde o verde e as cores “gritam” mais do que qualquer coisa.
Esta ótica pode ser baseado nas palavras do meu novo amigo fotógrafo João Correia Filho: “fotografar o deserto do atacama, até um cego traz boas fotos pois o lugar é lindo com uma luz perfeita e composições paradisíacas.”
Nesta mesma linha, em 1915, Edwad J. Steichen faz uma foto de uma garrafa de leite que mexe com o conceito de “boa foto”


Julgar uma fotografia entre o que é belo e o que não é belo, é assinar a sentença cultural e estética uma vez que nas palavras do poeta norte americano Walt Whitman, “ Todo objeto ou condição ou combinação ou processo exibe uma beleza”. É comum um fotógrafo ouvir de ignorantes de arte coisas do tipo:

_ Porque que você fotografou uma escada ?
_ O que você quer dizer com esta torneira?
_ O cara fotografa fios no poste !

O discutir do “belo” é ser inteligente para antes de qualquer menção, colocar que se algo foi fotografado, é porque foi atribuído uma certa importância. Para a beleza não há valor e nem importância mais para um que para outro. Uma foto ou uma obra de arte seja ela qualquer, já foi tratado com pouco caso por  Andy Warhol dizendo que todo mundo é uma celebridade “todo mundo é artista”. E quem diz então que para ser celebridade precisamos ser um homem ou uma  mulher bonita com cabelos bonitos, traços bonitos, olhos bonitos... (não existe padrão para a beleza)


O artista fotográfico ouve tanta bobagem de terceiros que por um instante dá até aquele súbito nervoso e depois passa por um sentimento de pena. Analisar mercado é analisar o que é comercial e para qual finalidade será usado o seu trabalho, tipo de público! Existe o público da arte e existe o público para o deserto do atacama ou até mesmo para a florzinha com a borboleta, afinal natureza, bicho de estimação e criança vende quase que em qualquer hipótese. Tem gente que gosta do azul, tem gente que gosta do PB, tem gente que gosta de todos os presets de lightroom, tem gente que gosta de iso alto, iso baixo, 10x15, 30x40 fine art, fotolivro...

black

Afinal, do que você (fotógrafo) gosta? O fotógrafo antes de qualquer coisa tem que gostar da vida e saber estabelecer as importâncias nas imagens e afins, que estará pré disposto a fotografar. Nas sábias palavras do Andy Warhol, você é o artista – é você mesmo, foi promovido. Você tem seu estilo, define as prioridades e se as pessoas vão gostar ou vão comprar é outro problema pois o que agora é feio, amanhã é belo. Faremos uma reflexão no seguinte: “Nós fotógrafos, fotografamos... quem vende é o mercado e quem impõe os padrões e formatos de beleza é a mídia.”

Ficamos aqui de encerramento, as palavras sábias de uma escritora:

“Tirar uma foto, é ter interesse pelas coisas como elas são, pela permanência do status quo (pelo menos enquanto for necessário para tirar uma “boa”foto), é estar em cumplicidade com o que quer que torne um tema interessante e digno de se fotografar – até mesmo, quando for esse o foco de interesse, com a dor e a desgraça de outra pessoa."

Susan Sontag

terça-feira, 1 de março de 2011

Fotojornalismo, violência e arte

Muito se percebe nas bancas de jornal e em ambientes de trabalho, quando acessado os portais de jornalismo na internet, as pessoas comentando das fotos e/ou comprando impressos com imagens sensacionalistas de horror.

Se observarmos as fotos de assassinatos, desgraças de enchentes com desabamentos, terremotos, fome e até mesmo agora que estamos no certo apelo Haitiano notamos que estas abalam a ponto de encher de lágrimas os olhos de algumas pessoas, ou até mesmo fazer com que outras teçam comentários do tipo: “Nossa eu não teria coragem de fazer uma foto dessas e muito menos estar num lugar desses.” Mas implicitamente o convívio com estas imagens fotográficas de sofrimento faz com que as pessoas tanto sejam paralisadas e com o passar do tempo tornam-se comuns.



A ação de tornar comum ver imagens de sofrimento / violência ocorre ao fato de que depois que viu as ditas “imagens fortes” pela primeira vez, o estarrecimento já ocorrera e o impacto deixa de ser o primeiro. Um evento / tragédia seqüenciada por fotos, é mais bem compreendida que apenas decifrada por texto. Atualmente portais de notícias como G1, Uol, Terra, Ig e o histórico Daily News (Jornal de Imagens de Nova Iorque ) recebem bombardeios de visitas porque tem as galerias de imagens e infográficos do dia ou galeria específica das catástrofes recém acontecidas.

“As fotos foram vistas como um modo de dar informação para as pessoas que não sabem ler.” Susan Sontag

Nota-se que as fotos do recente terremoto no Haiti estão de certa forma menos em ênfase que as da queda do poder do ditador Egípcio e que estão atrás da queda do da Líbia. A agressividade é tanta e com tanta freqüência que de tempos pra cá, não é mais novidade ver carros boiando em ruas e avenidas, tanques de guerra nas ruas, gente com fome, situação de calamidade,  soldados espalhados por todo canto e cenas de guerra. Essa exposição da violência está tão rápida e tão difundida que numa espécie de anestesia, ficamos fadados e acostumados a essa violência visual que despercebidamente colocamos a desgraça como arte. No que a fotografia nunca deixou de ser arte como também comprova o documental, tanto no registro quanto na presença do ser humano que esteve no local para executar o processo fotográfico.

A cena catastrófica já faz parte do dia a dia das pessoas fazendo assim com que a agressividade visual e a injustiça sejam algo que em dado momento, já fora um “choque” na vida de quem recebeu a informação e que atualmente o horror é comum e rotineiro. O que acontece é que as fotos só carregam sentimentos para os que vivem a época / determinada situação do horror, mesmo assim o bombardeio de imagens é tanto que na verdade só carrega a emoção quem vive a catástrofe / horror.



Nota-se que com o passar dos anos a fotografia vai sumindo com o valor emocional carregando  apenas ao valor histórico como podemos citar por exemplo, fotos da 2ª Guerra Mundial. Não chegamos a chorar deparar com uma foto de holocausto, porém o valor histórico desse registro vale mais do que muitas lágrimas que foram derramadas por causa desta. Independente de ser profissional ou não, uma fotografia executada por longa data, carrega um valor histórico inestimável fazendo assim com que colecionadores de fotos desconhecidas agreguem outro tipo de carga emocional.

A fotografia pode ter valores agregados conforme o contexto histórico, processo, data e mecanismo na qual foi produzida. Podemos dizer que uma fotografia é uma obra autêntica confeccionada, acredita-se, que por apenas um fotógrafo disparador. Ela carrega esse contexto nominal de autenticidade porque como exemplo, as galerias de imagens dos portais citados acima, muitas vezes são de uma mesma temática, de uma mesma atrocidade,  mas composta por partículas (fotografias) de diversos fotógrafos uma vez que não há limites para fotografar uma mesma cena da realidade social a qual não será uma grande novidade para muitos que estão familiarizados.

O sucesso dos fotojornalistas atuais está na busca, não da foto documental e sim do melhor ângulo, melhor composição, melhor foto da cena rotineira que ainda assim sendo algo comum, faça uma pessoa olhar para a foto e ficar minutos e minutos congelados, observando, tirando conclusões e imaginando o antes, o durante e o depois daquele instante de tempo congelado por um disparo bem composto e digno de fantasiar a mente do observador.


Foto: Reinaldo Marques/Terra

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Fotografia, voyeurismo e disparos contra a alma.

Urban

O fotografo como nos grandes filmes ocupa papel fundamental para que possam ser comprovados / justificados os acontecimentos, para que proporcione arte e também para que a beleza e a sensualidade sejam transcritas. O fotógrafo é a voz dos sentimentos diversos, seja ele pela dor, pela alegria, pelo sentimento afetivo carnal entre outros.
Mas existem tipos e tipos de fotógrafos com seus estilos, manias, conhecimentos teóricos, técnicos, com equipamentos dos mais diversos tipos, custos e modelos. Acontece que a fotografia cada vez mais está no gosto popular além de custo/equipamento estar cada vez mais acessível. Em contrapartida questões como “fazer e saber o que está fazendo” é o que se mostra pertinente nas discussões em mídias sociais e fóruns sobre fotografia.
                Acender um cigarro, abrir uma lata de cerveja, puxar um gatilho e efetuar um disparo fotográfico tem muita coisa em comum; A facilidade e o vício! A facilidade de que hoje temos em ter acesso à uma arma de fogo, à comprar um cigarro como acessibilidade à conhecimentos específicos espalhados por toda a internet, é o que torna muito mais fácil o ato de FOTOGRAFAR. Assim como o cigarro e a bebida, as câmeras, são produtos de fantasia cujo uso causa dependências. A exemplo disso, vemos muitos fotógrafos que como policiais estão sempre armados e não dispensam seus equipamentos de forma alguma. Muito é debatido que a Câmera é a extensão do corpo do fotógrafo assim como nas escolas militares que a arma é a extensão do corpo do policial.
                Sendo assim uma suposta extensão do fotógrafo, como os olhos podemos a todo o momento olhar, mirar, focar e disparar ( esqueçamos a técnica ). Os olhos ao observar uma cena incrível ou uma bela paisagem (a que mereça um congelamento histórico), se uma pessoa tiver uma câmera nas mãos, Essa pessoa tem a oportunidade de eternizar um momento que muitos viram e só ela a possuiu porque tinha uma câmera! ( E tem como provar ).
Assim ilustrado pela escritora Susan Sontag, ter uma câmera é estar a beira de uma extensão do corpo e um prazer carnal.
“ ___ como a fantasia masculina de ter uma arma, uma faca ou uma ferramenta entre as pernas. Ainda assim existe algo predatório no ato de tirar uma foto. Fotografar pessoas é violá-las, ao vê-las como elas nunca se vêem, ao ter delas um conhecimento que elas nunca podem ter; transforma as pessoas em objetos que podem ser simbolicamente possuídos. Assim como a câmera é uma sublimação da arma, fotografar alguém é um assassinato sublimado –”
                Com esse análogo sobre fotografia x assassinato, ver as pessoas como elas não se vêem já é a prática do voyeurismo de forma que dependendo do contexto (punctun ou studium – R. Barthes) , numa atitude violenta invadimos o momento privativo das pessoas e a aprisionamos dentro das câmeras muitas vezes no seu momento mais íntimo de solidão. Uma solidão em que aquele dado momento em que o fotógrafo observa uma pessoa simplesmente andando de bicicleta sobre a rua e se apodera daquele momento único que na verdade seria só do fotografado, percebe-se que executamos fisicamente o disparo e o momento de vida / ou de imagem que era para ser só daquela pessoa cuja foi alvo de “uma suposta” invasão de privacidade, passa a ser multiplicado ou até mesmo difundido através de impressões, redes ou até mesmo depois de anos e anos que aquele dado momento é misterioso e ganha um contexto histórico.

Belief

Como estudante eterno de fotografia mirado na busca incessante da compreensão do que é ser fotógrafo, faço alguns disparos fotográficos, “ditos assassinatos sublimes”, assim ilustrados pela escritora,  em cenas cotidianas não justificando ensaios nem estéticas e nem procurando um destaque, mas sim como ilustrado nas figuras deste texto poder assassinar fotograficamente uma cena que cruza a minha vida no meu dia a dia e me saciar prazerozamente no congelamento de um pedaço do tempo que da minha mente poderá se apagar em pouco tempo, mas que do papel e dos arquivos digitais poderão propagar por mais tempo e/ou eternizar-se para todo o sempre.

“Quando temos medo, atiramos, mas quando ficamos nostálgicos, tiramos foto”
Susan Sontag 

sábado, 29 de janeiro de 2011

A decisão no ato fotográfico

No olho da Rua

Uma camera nas mãos de uma pessoa faz com que ela decida até por uma vida em determinadas situações assim ilustrado por Susan Sontag e comentado por mim.

“Um anuncio de página inteira mostra um pequeno grupo de pessoas de pé, apertadas umas contra as outras, olhando para fora da foto, e todas, exceto uma, parecem espantadas, empolgadas, aflitas. O único que tem uma expressão diferente segura uma câmera junto ao olho; ele parece seguro de si, quase sorrindo. Enquanto os demais são espectadores passivos, nitidamente alarmados, ter uma câmera transformou uma pessoa em algo ativo, um voyeur: só ele dominou a situação.”

Na citação acima, por se tratar de uma propaganda da “Leica” também trata-se do posicionamento de um evento, onde as pessoas boquiabertas são tomadas pelo acontecimento e o fotógrafo no seu ato quase que num ápice sexual consegue a captura do evento digno de se ver e consequentemente digno de fotografar.
Quero neste texto fazer uma observação de que já me peguei vibrando e sorrindo em determinadas fotos feitas por mim em situações que tive de fazer escolhas entre ver a cena e capturar a cena.

A atitude de fotografar intrinsecamente coloca o fotógrafo em tomadas de decisões mais categóricas como: interferir, invadir ou ignorar a cena. O fotógrafo deve-se projetar em um mundo por de trás das câmeras – o mundo de apenas observar e acionar disparos contra a cena na esfera da não intervenção bem retratada no fotojornalismo e interpretada de forma não-humanitária já que um fotógrafo tem de optar pela foto ou pela vida e ele opta pela foto como retratado no filme abaixo e que põe muita gente para pensar.

 

Não podemos apenas pensar em fotojornalismo, um exemplo de voyeurismo é a fotografia de natureza. Apesar de muita gente achar que é clichê ou bonitinho fotografar a vida selvagem, os fotógrafos principalmente os iniciantes devem ler muito antes de empunhar uma câmera e caçar ninhos de pássaros entre outros animais para obter um belo registro. A exemplo disso, depois de muita leitura sobre fotografia selvagem aventurei-me em fazer registros de uma família de corujas que habitam o acampamento (WWW.replago.com.br) no qual sou fotógrafo. Consegui belos registros e de forma segura das aves que por sua vez poderão de certa forma ser agressivas se interferidas de algumas formas.

No processo decisivo, o fotografo por sua vez deve ter interesse pelas coisas como elas são e não tentá-las fazer através da interferência como ilustra Susan Sontag:

“Tirar uma foto, é ter interesse pelas coisas como elas são, pela permanência do status quo (pelo menos enquanto for necessário para tirar uma “boa”foto), é estar em cumplicidade com o que quer que torne um tema interessante e digno de se fotografar – até mesmo, quando for esse o foco de interesse, com a dor e a desgraça de outra pessoa."