sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Fotografia, voyeurismo e disparos contra a alma.

Urban

O fotografo como nos grandes filmes ocupa papel fundamental para que possam ser comprovados / justificados os acontecimentos, para que proporcione arte e também para que a beleza e a sensualidade sejam transcritas. O fotógrafo é a voz dos sentimentos diversos, seja ele pela dor, pela alegria, pelo sentimento afetivo carnal entre outros.
Mas existem tipos e tipos de fotógrafos com seus estilos, manias, conhecimentos teóricos, técnicos, com equipamentos dos mais diversos tipos, custos e modelos. Acontece que a fotografia cada vez mais está no gosto popular além de custo/equipamento estar cada vez mais acessível. Em contrapartida questões como “fazer e saber o que está fazendo” é o que se mostra pertinente nas discussões em mídias sociais e fóruns sobre fotografia.
                Acender um cigarro, abrir uma lata de cerveja, puxar um gatilho e efetuar um disparo fotográfico tem muita coisa em comum; A facilidade e o vício! A facilidade de que hoje temos em ter acesso à uma arma de fogo, à comprar um cigarro como acessibilidade à conhecimentos específicos espalhados por toda a internet, é o que torna muito mais fácil o ato de FOTOGRAFAR. Assim como o cigarro e a bebida, as câmeras, são produtos de fantasia cujo uso causa dependências. A exemplo disso, vemos muitos fotógrafos que como policiais estão sempre armados e não dispensam seus equipamentos de forma alguma. Muito é debatido que a Câmera é a extensão do corpo do fotógrafo assim como nas escolas militares que a arma é a extensão do corpo do policial.
                Sendo assim uma suposta extensão do fotógrafo, como os olhos podemos a todo o momento olhar, mirar, focar e disparar ( esqueçamos a técnica ). Os olhos ao observar uma cena incrível ou uma bela paisagem (a que mereça um congelamento histórico), se uma pessoa tiver uma câmera nas mãos, Essa pessoa tem a oportunidade de eternizar um momento que muitos viram e só ela a possuiu porque tinha uma câmera! ( E tem como provar ).
Assim ilustrado pela escritora Susan Sontag, ter uma câmera é estar a beira de uma extensão do corpo e um prazer carnal.
“ ___ como a fantasia masculina de ter uma arma, uma faca ou uma ferramenta entre as pernas. Ainda assim existe algo predatório no ato de tirar uma foto. Fotografar pessoas é violá-las, ao vê-las como elas nunca se vêem, ao ter delas um conhecimento que elas nunca podem ter; transforma as pessoas em objetos que podem ser simbolicamente possuídos. Assim como a câmera é uma sublimação da arma, fotografar alguém é um assassinato sublimado –”
                Com esse análogo sobre fotografia x assassinato, ver as pessoas como elas não se vêem já é a prática do voyeurismo de forma que dependendo do contexto (punctun ou studium – R. Barthes) , numa atitude violenta invadimos o momento privativo das pessoas e a aprisionamos dentro das câmeras muitas vezes no seu momento mais íntimo de solidão. Uma solidão em que aquele dado momento em que o fotógrafo observa uma pessoa simplesmente andando de bicicleta sobre a rua e se apodera daquele momento único que na verdade seria só do fotografado, percebe-se que executamos fisicamente o disparo e o momento de vida / ou de imagem que era para ser só daquela pessoa cuja foi alvo de “uma suposta” invasão de privacidade, passa a ser multiplicado ou até mesmo difundido através de impressões, redes ou até mesmo depois de anos e anos que aquele dado momento é misterioso e ganha um contexto histórico.

Belief

Como estudante eterno de fotografia mirado na busca incessante da compreensão do que é ser fotógrafo, faço alguns disparos fotográficos, “ditos assassinatos sublimes”, assim ilustrados pela escritora,  em cenas cotidianas não justificando ensaios nem estéticas e nem procurando um destaque, mas sim como ilustrado nas figuras deste texto poder assassinar fotograficamente uma cena que cruza a minha vida no meu dia a dia e me saciar prazerozamente no congelamento de um pedaço do tempo que da minha mente poderá se apagar em pouco tempo, mas que do papel e dos arquivos digitais poderão propagar por mais tempo e/ou eternizar-se para todo o sempre.

“Quando temos medo, atiramos, mas quando ficamos nostálgicos, tiramos foto”
Susan Sontag 

1 comentários:

Simplesmente maria disse...

Este texto é muito importante. Nunca imaginei a fotografia assim. Sempre fotografei meio que aleatoriamente, lógico que a partir de um assunto.

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