FOTOGRAFIA E A DISCUSSÃO DO QUE É BELO
O discutir do “belo” é ser inteligente para antes de qualquer menção, colocar que se algo foi fotografado, é porque foi atribuído uma certa importância. Para a beleza não há valor e nem importância mais para um que para outro. Uma foto ou uma obra de arte seja ela qualquer, já foi tratado com pouco caso por Andy Warhol...
Fotojornalismo, violência e arte
A ação de tornar comum ver imagens de sofrimento / violência ocorre ao fato de que depois que viu as ditas “imagens fortes” pela primeira vez, o estarrecimento já ocorrera e o impacto deixa de ser o primeiro. Um evento / tragédia seqüenciada por fotos, é mais bem compreendida que apenas decifrada por texto.
quarta-feira, 9 de março de 2011
Fotografia e a discussão do que é belo !
17:14
Rafael Habermann
Desde o surgimento da fotografia muito se fala em que - fotos são imagens idealizadas – discute-se até então que a fotografia não era uma arte por ser apenas um mero meio de registro. Ainda na mente de muitos fotógrafos amadores, a bela imagem é aquela clichê da flor bonita com uma borboleta bonita em um lugar totalmente florido onde o verde e as cores “gritam” mais do que qualquer coisa.
Esta ótica pode ser baseado nas palavras do meu novo amigo fotógrafo João Correia Filho: “fotografar o deserto do atacama, até um cego traz boas fotos pois o lugar é lindo com uma luz perfeita e composições paradisíacas.”
Nesta mesma linha, em 1915, Edwad J. Steichen faz uma foto de uma garrafa de leite que mexe com o conceito de “boa foto”
Julgar uma fotografia entre o que é belo e o que não é belo, é assinar a sentença cultural e estética uma vez que nas palavras do poeta norte americano Walt Whitman, “ Todo objeto ou condição ou combinação ou processo exibe uma beleza”. É comum um fotógrafo ouvir de ignorantes de arte coisas do tipo:
_ Porque que você fotografou uma escada ?
_ O que você quer dizer com esta torneira?
_ O cara fotografa fios no poste !
O discutir do “belo” é ser inteligente para antes de qualquer menção, colocar que se algo foi fotografado, é porque foi atribuído uma certa importância. Para a beleza não há valor e nem importância mais para um que para outro. Uma foto ou uma obra de arte seja ela qualquer, já foi tratado com pouco caso por Andy Warhol dizendo que todo mundo é uma celebridade “todo mundo é artista”. E quem diz então que para ser celebridade precisamos ser um homem ou uma mulher bonita com cabelos bonitos, traços bonitos, olhos bonitos... (não existe padrão para a beleza)
O artista fotográfico ouve tanta bobagem de terceiros que por um instante dá até aquele súbito nervoso e depois passa por um sentimento de pena. Analisar mercado é analisar o que é comercial e para qual finalidade será usado o seu trabalho, tipo de público! Existe o público da arte e existe o público para o deserto do atacama ou até mesmo para a florzinha com a borboleta, afinal natureza, bicho de estimação e criança vende quase que em qualquer hipótese. Tem gente que gosta do azul, tem gente que gosta do PB, tem gente que gosta de todos os presets de lightroom, tem gente que gosta de iso alto, iso baixo, 10x15, 30x40 fine art, fotolivro...
Afinal, do que você (fotógrafo) gosta? O fotógrafo antes de qualquer coisa tem que gostar da vida e saber estabelecer as importâncias nas imagens e afins, que estará pré disposto a fotografar. Nas sábias palavras do Andy Warhol, você é o artista – é você mesmo, foi promovido. Você tem seu estilo, define as prioridades e se as pessoas vão gostar ou vão comprar é outro problema pois o que agora é feio, amanhã é belo. Faremos uma reflexão no seguinte: “Nós fotógrafos, fotografamos... quem vende é o mercado e quem impõe os padrões e formatos de beleza é a mídia.”
Ficamos aqui de encerramento, as palavras sábias de uma escritora:
“Tirar uma foto, é ter interesse pelas coisas como elas são, pela permanência do status quo (pelo menos enquanto for necessário para tirar uma “boa”foto), é estar em cumplicidade com o que quer que torne um tema interessante e digno de se fotografar – até mesmo, quando for esse o foco de interesse, com a dor e a desgraça de outra pessoa."
Susan Sontag
terça-feira, 1 de março de 2011
Fotojornalismo, violência e arte
11:28
Rafael Habermann
Muito se percebe nas bancas de jornal e em ambientes de trabalho, quando acessado os portais de jornalismo na internet, as pessoas comentando das fotos e/ou comprando impressos com imagens sensacionalistas de horror.
Se observarmos as fotos de assassinatos, desgraças de enchentes com desabamentos, terremotos, fome e até mesmo agora que estamos no certo apelo Haitiano notamos que estas abalam a ponto de encher de lágrimas os olhos de algumas pessoas, ou até mesmo fazer com que outras teçam comentários do tipo: “Nossa eu não teria coragem de fazer uma foto dessas e muito menos estar num lugar desses.” Mas implicitamente o convívio com estas imagens fotográficas de sofrimento faz com que as pessoas tanto sejam paralisadas e com o passar do tempo tornam-se comuns.
A ação de tornar comum ver imagens de sofrimento / violência ocorre ao fato de que depois que viu as ditas “imagens fortes” pela primeira vez, o estarrecimento já ocorrera e o impacto deixa de ser o primeiro. Um evento / tragédia seqüenciada por fotos, é mais bem compreendida que apenas decifrada por texto. Atualmente portais de notícias como G1, Uol, Terra, Ig e o histórico Daily News (Jornal de Imagens de Nova Iorque ) recebem bombardeios de visitas porque tem as galerias de imagens e infográficos do dia ou galeria específica das catástrofes recém acontecidas.
“As fotos foram vistas como um modo de dar informação para as pessoas que não sabem ler.” Susan Sontag
Nota-se que as fotos do recente terremoto no Haiti estão de certa forma menos em ênfase que as da queda do poder do ditador Egípcio e que estão atrás da queda do da Líbia. A agressividade é tanta e com tanta freqüência que de tempos pra cá, não é mais novidade ver carros boiando em ruas e avenidas, tanques de guerra nas ruas, gente com fome, situação de calamidade, soldados espalhados por todo canto e cenas de guerra. Essa exposição da violência está tão rápida e tão difundida que numa espécie de anestesia, ficamos fadados e acostumados a essa violência visual que despercebidamente colocamos a desgraça como arte. No que a fotografia nunca deixou de ser arte como também comprova o documental, tanto no registro quanto na presença do ser humano que esteve no local para executar o processo fotográfico.
A cena catastrófica já faz parte do dia a dia das pessoas fazendo assim com que a agressividade visual e a injustiça sejam algo que em dado momento, já fora um “choque” na vida de quem recebeu a informação e que atualmente o horror é comum e rotineiro. O que acontece é que as fotos só carregam sentimentos para os que vivem a época / determinada situação do horror, mesmo assim o bombardeio de imagens é tanto que na verdade só carrega a emoção quem vive a catástrofe / horror.
Nota-se que com o passar dos anos a fotografia vai sumindo com o valor emocional carregando apenas ao valor histórico como podemos citar por exemplo, fotos da 2ª Guerra Mundial. Não chegamos a chorar deparar com uma foto de holocausto, porém o valor histórico desse registro vale mais do que muitas lágrimas que foram derramadas por causa desta. Independente de ser profissional ou não, uma fotografia executada por longa data, carrega um valor histórico inestimável fazendo assim com que colecionadores de fotos desconhecidas agreguem outro tipo de carga emocional.
A fotografia pode ter valores agregados conforme o contexto histórico, processo, data e mecanismo na qual foi produzida. Podemos dizer que uma fotografia é uma obra autêntica confeccionada, acredita-se, que por apenas um fotógrafo disparador. Ela carrega esse contexto nominal de autenticidade porque como exemplo, as galerias de imagens dos portais citados acima, muitas vezes são de uma mesma temática, de uma mesma atrocidade, mas composta por partículas (fotografias) de diversos fotógrafos uma vez que não há limites para fotografar uma mesma cena da realidade social a qual não será uma grande novidade para muitos que estão familiarizados.
O sucesso dos fotojornalistas atuais está na busca, não da foto documental e sim do melhor ângulo, melhor composição, melhor foto da cena rotineira que ainda assim sendo algo comum, faça uma pessoa olhar para a foto e ficar minutos e minutos congelados, observando, tirando conclusões e imaginando o antes, o durante e o depois daquele instante de tempo congelado por um disparo bem composto e digno de fantasiar a mente do observador.

Foto: Reinaldo Marques/Terra
Foto: Reinaldo Marques/Terra

